©ICRC/G. Muller
Janan se cadastra na delegação do CICV em Cabul para fazer uma ligação por meio de teleconferência.
Apesar de ter quase 50 anos, Janan só visitou a capital afegã, Cabul, duas vezes em toda a vida. A primeira vez tinha sido no ano passado a fim de investigar o paradeiro de seu filho, Barialai*, preso no verão passado pelas forças americanas que operam no país em apoio ao governo afegão. Desta vez, ele veio com a esperança de vê-lo. Dois meses atrás, Janan escutou no rádio que o CICV e as autoridades americanas haviam lançado um novo sistema que permite às famílias dos detidos mantidos na Base Aérea de Bagram conversar com eles, vendo-os na tela da TV. Logo depois, enviou um primo para Cabul, para que ele se informasse sobre a novidade na delegação do CICV. O primo voltou e confirmou a notícia e Janan foi para Cabul, acompanhado da mulher e da filha caçula.
A família de Janan é da tribo Kuchi, pastores nômades que, durante boa parte do ano, caminham com seus grandes rebanhos de animais pelos planaltos e regiões montanhosas no sul e no leste do Afeganistão. Geralmente a família de Janan passa os meses de verão no mesmo distrito na província de Ghazni, e os de inverno nas províncias vizinhas à procura de pastos para seus animais. Ele e sua família de 12 filhos (seis dos quais casados), três filhas e a mulher, têm um rebanho de 180 cabras e ovelhas. Nos últimos anos, o rebanho produziu o suficiente para sustentá-los.
A história de Barialai, que foi enviado numa missão, mas não voltou
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Haji Subhanullah, membro da equipe do CICV,explica como funciona o sistema de vídeo.
Janan se lembra do dia em que seu filho Barialai desapareceu. Ele o havia enviado para receber o dinheiro que um morador do vilarejo lhe devia da compra de algumas ovelhas da família. Passaram-se três dias e Barialai não havia voltado; então Janan foi ao povoado para ter notícias dele e ficou sabendo que seu filho havia sido preso durante uma operação militar das forças internacionais. Ninguém sabia para onde ele tinha sido levado.
Janan foi se encontrar com membros da shura local, uma comissão de sábios idosos, mas eles não puderam se encontrar com ele. Analfabeto e sem condições de tratar com a administração governamental, Janan e sua família estavam perdidos em relação ao que fazer naquela situação. Esperaram em agonia por três longos meses. Então um conhecido da família lhes disse que havia uma carta destinada a eles no escritório da Sociedade Afegã do Crescente Vermelho, que não havia sido entregue porque não tinha nenhum endereço fixo.
Mensagem Cruz Vermelha foi 'presente de Deus'
A carta, uma Mensagem Cruz Vermelha (MCV), tinha sido escrita por um dos companheiros de cela de Barialai em Bagram, durante uma visita dos delegados do CICV. Trouxe boas notícias: Barialai estava vivo, gozava de boa saúde e enviou saudações à família, pedindo para que eles não se preocupassem. Era a época do Ramadan, o mês sagrado muçulmano em que se observa o jejum. Nas palavras de Janan, a carta de Barialai era um 'presente de Deus'.
Ao longo dos meses seguintes, mais duas MCV chegaram para a família de Janan. Nas suas cartas, Barialai também pedia notícias da família. Da mesma forma que Janan tinha ficado preocupado com seu filho, Barialai estava preocupado com o destino de seus entes queridos que tinham ficado em casa. Mas Janan não lhe respondeu. A idéia de escrever lhe pareceu demasiado abstrata. Ele havia criado uma família com orgulho, mas nunca aprendeu como ler ou escrever.
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Janan e sua mulher na cabine telefônica de vídeo, falando com seu filho.
Quando ele soube que havia uma possibilidade de falar com seu filho e de vê-lo na tela do vídeo, no escritório da delegação do CICV, ficou feliz. Além disso, seu primo havia lhe dito que o CICV iria reembolsar as despesas de viagem, embora, segundo ele mesmo declarou, venderia quantas ovelhas fossem necessárias para poder ver o filho.
Dúvidas sobre ver o filho 'na televisão'
Depois de uma viagem num táxi coletivo de Ghazni a Cabul, eles chegaram à delegação do CICV numa segunda-feira para se cadastrar a um telefonema no dia seguinte. Era um belo dia de primavera, sua mulher e a filha pequena haviam passado o tempo tomando sol enquanto esperavam pela vez de serem atendidas, observando a chegada e a saída de outras famílias, que também vinham se cadastrar para fazer telefonemas no escritório do CICV. Muitas vinham pela segunda vez e compartilhavam suas experiências com Shanan. "Antes de vir aqui, eu tinha dúvidas se fosse mesmo possível falar com meu filho na televisão! Agora não tenho mais", afirmou. Quando chegou sua vez, ele se cadastrou e recebeu uma senha para um telefonema de 20 minutos no dia seguinte.
"O que você vai dizer para seu filho amanhã?", perguntou um funcionário do CICV. "Só quero lhe perguntar se ele está bem, se está saudável e passa bem", respondeu Janan com um sorriso. "E dizer que agora seu irmão está casado. Esta é a única notícia. Tudo o resto está como deveria estar", acrescentou.
No dia seguinte, enquanto Janan estava relaxado e conversava com as outras pessoas, sua mulher e filha estavam nervosas e quase não falavam. Quando chegou a vez de eles serem atendidos, lhes mostraram a cabine e explicaram como o sistema funcionava. Minutos depois, a tela acendeu e lá estava ele, Barialai!
Ao longo dos próximos vinte minutos, Janan e sua família mantiveram os olhos fixos na tela e falaram. De vez em quando, a conversa era pontilhada por algumas risadas. Quando eles saíram da cabine estavam visivelmente aliviados. Enquanto, discretamente, derramava uma lágrima, Janan disse: "Eu não teria creditado. Muito obrigado, CICV. Ele está saudável e passa bem. Disse que está aprendendo a ler livros e como recitar o Alcorão", e acrescentou, sorrindo: "Quando ele voltar, será um Mullah e não vai mais querer cuidar do rebanho!". Janan pegou seu dinheiro no balcão e a família deixou o prédio da delegação, de volta para casa, na montanha.
* O nome do detido foi mudado para proteger sua identidade.