15-01-2008 Reportagem Paquistão: doutores na linha de frente A vida continua difícil em muitas partes do mundo e o Paquistão não é exceção, tendo recebido sua porção de guerra e conflitos na sua curta história. Sitara Jabeen, do CICV, relata como os profissionais médicos lidam com o elevado estresse de viver em áreas afetadas pela violência armada. Conflitos armados entre as forças paquistanesas e grupos armados nas áreas ao oeste do país estão aumentando. As áreas mais afetadas na segunda parte de 2007 foram as Áreas Tribais Administradas Federalmente (sigla em inglês: FATA) e a Província da Fronteira Ocidental do Norte (sigla em inglês: NWFP), especialmente a área ao redor do Swat.
©ICRC
Doutores participando no seminário do CICV sobre cirurgia de guerra.
A vida antes da violência “ A vida em Swat era muito calma há alguns meses, mesmo não sendo a região mais desenvolvida. O vale era um lugar delicioso para que um médico trabalhasse. As doenças comuns atingiam as pessoas, mas os que viviam nas montanhas eram fisicamente mais fortes e saudáveis.” Estas foram as palavras do Dr. Yasir, que trabalha em um hospital público em Swat e também mora na área. Agora Swat está longe de ser um lugar calmo e alguns dos residentes locais relembram o passado mais tranqüilo, quando até mesmo os crimes de rua eram raros e ninguém tinha medo de sair. Para as pessoas das Áreas Tribais Administradas Federalmente (FATA), o conflito não é novo, mas nunca é fácil acostumar-se às tragédias e à violência. Os médicos de Swat agora enfrentam os mesmos problemas que os médicos nas FATA viveram por vários anos. Um médico das FATA lida com o presente bloqueando as lembranças distantes. “Não me lembro do passado mais. Simplesmente soma mais dor ao presente e ao que supostamente teremos no futuro.” Os desafios constantes Desde a crescente intensidade dos conflitos, estes médicos estão tratando continuamente as emergências relacionadas à violência, mas vêem poucos pacientes com doenças comuns. “Nós não recebemos mais o fluxo normal de pacientes. Não porque eles não estejam doentes, mas porque eles já não conseguem chegar ao hospital devido ao movimento restrito,” explica o Dr. Waseem de Swat. O Dr. Yasir disse que ele não pôde ver sua família por seis meses já que ele não podia chegar até a sua vila devido ao pesado conflito – ele também se entristeceu por aqueles pacientes que não pôde ver e que talvez estivessem precisando de tratamento médico. “Não é muito diferente em Miranshah, a capital do Waziristão. Bombas e foguetes atingem as casas das pessoas algumas vezes e se elas têm sorte as bombas não explodem. De qualquer forma, só aumenta a dor de cada um,” diz o Dr. Murabak Khan. Um médico de Swat sorri, “Agradeço ao CICV por este treinamento, embora todos os pacientes feridos por armas serão dados a mim agora!”. Uma grande tragédia, para alguns dos médicos, é que agora eles têm que conduzir mais exames de óbito do que exames comuns. Dano psicológico De acordo com o gerente de programa do CICV, Sald-ud-Din, o dano humano não é somente físico. Ele diz que a população, especialmente as crianças, estão sendo afetadas psicologicamente pelo ambiente ameaçador marcado por explosões. As conseqüências também se espalharam para as áreas mais calmas da província, incluindo a capital Peshawar. De acordo com uma médica recentemente transferida de Swat a Peshawar, a situação é ainda pior para as mulheres. “Enquanto os homens têm medo de sair, as mulheres estão a um passo atrás e tenho receio de que muitas mulheres estejam perdendo a oportunidade de visitas básicas ao médico.” Perguntaram aos participantes do workshop do CICV se eles queriam sair destas áreas problemáticas. A resposta unânime foi negativa. Profissionalmente, eles não podem porque serão enviados a outro lugar, mas de qualquer forma, eles têm uma conexão emocional que querem manter. Entretanto, todos gostariam de voltar a uma época em que recebiam poucas emergências e mais pacientes de rotina. |