Como está a situação no distrito de Bajaur, na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão?
Estamos muito preocupados com as vítimas do novo recrudescimento do conflito armado. Quando os combates se intensificaram, cerca de 200 mil pessoas deixaram seus povoados no distrito de Bajaur, levando praticamente a roupa do corpo. Aproximadamente 80% dessas pessoas deslocadas são mulheres e crianças que foram abrigadas em casas de famílias ou em campos improvisados em escolas e outros lugares. Elas carecem de tudo e precisam de tudo: abrigo, acesso a água potável e saneamento, serviços de saúde e comida.
Que medidas o CICV está adotando para ajudar os atingidos pelo conflito?
Essa é uma situação instável. O conflito armado está se desenvolvendo de acordo com sua própria lógica, e várias pessoas estão fugindo. Para fazer a diferença e aliviar o sofrimento das pessoas atingidas, tivemos que atuar rapidamente. Em parceria com a Sociedade do Crescente Vermelho do Paquistão, pretendemos atender às necessidades das pessoas mais vulneráveis entre essa população de deslocados. As primeiras famílias a chegar à estação de ônibus de Peshawar receberam uma refeição quente das equipes do CICV e da Sociedade do Crescente Vermelho do Paquistão (PRCS). Alguns dos feridos que chegaram primeiro foram evacuados em ambulâncias organizadas pela PRCS e tratadas com material médico fornecido pelo CICV. Queremos manter essa linha de ação. Estamos distribuindo cobertores, utensílios de cozinhas, lonas e outros gêneros domésticos de primeira necessidade a centenas de famílias todos os dias. Estão sendo instalados pontos de distribuição de água potável em cinco campos que abrigam cerca de 25 mil pessoas no distrito de Lower Dir, na Província da Fronteira Noroeste, no Paquistão. Sete engenheiros trabalham para restabelecer os sistemas, incluindo tanque de água que devem entrar em operação no fim da semana. A água potável será transportada em caminhões. Os feridos vêm recebendo atendimento médico, que também está sendo organizado para os deslocados. A distribuição de comida para os deslocados começará nos próximos dias.
O senhor acredita que é possível chegar a todos os que precisam de assistência?
Estamos confiantes, inclusive apesar dos desafios impostos pelo ambiente. Equipes do CICV e do Crescente Vermelho do Paquistão estão nos locais de chegada dos deslocados internos e podemos, juntos, identificar os mais vulneráveis para prestar assistência. Ao mesmo tempo, nossa delegação no Afeganistão começou a levar ajuda a mais de 2 mil famílias que partiram do distrito de Bajaur rumo ao outro lado da fronteira. Este conflito se desenvolve em um ambiente altamente volátil, que tem implicâncias para nossa própria segurança operacional. No entanto, estamos convencidos de que, em parceria com a Sociedade do Crescente Vermelho do Paquistão, podemos realizar nossas operações humanitárias de um modo que seja considerado, por todas as partes, como o de um ator neutro e independente.
Que experiência o CICV tem por já haver operado nessas áreas?
O CICV tem estado permanentemente no Paquistão desde 1981. Essa presença inclui operações no Território Federal das Áreas Tribais e na Província da Fronteira Noroeste. A situação certamente mudou ao longo dos anos, e o conflito atual está seguindo sua própria lógica e dinâmica. No entanto, temos confiança de que o governo do Paquistão, suas forças armadas e de segurança, os grupos armados opositores e a população civil nos conhecem bem, assim como nossa neutralidade e independência. Isso nos dará a credibilidade necessária para avançar e trabalhar em meio ao conflito armado.
O senhor acredita que os deslocados poderão retornar às suas casas em breve, ou estamos falando de uma operação de assistência de longo prazo?
Para o bem das vítimas, precisamos ter a esperança de que elas poderão voltar rapidamente aos seus povoados, recuperar sua dignidade e recomeçar suas vidas. Queremos evitar que se prolongue uma situação em que mulheres, crianças e idosos estão vivendo em campos ou abrigados em casas de famílias, separados de seus maridos, pais e filhos, já que os homens permaneceram nas áreas de conflito para proteger seus bens.
Embora tenhamos essa esperança, precisamos estar prontos para quaisquer eventualidades. Antes dessa nova escalada, o conflito no Território Federal das Áreas Tribais já estava em andamento durante um bom tempo. Portanto, estamos seguindo de perto sua evolução e prontos para intervir quando necessário.