Comunicado de imprensa: CICV faz apelo por cifra recorde para trabalho humanitário em 2008.
Informações chave dos apelos emergenciais e da sede do CICV para 2008.
Fotografias - as atividades do CICV ao redor do mundo.
|
O CICV tem a satisfação de apresentar suas principais tendências e prioridades operacionais para 2008. Este documento oferece uma análise detalhada das situações encontradas por cerca de 80 delegações e missões no terreno em todo o mundo e delineia os respectivos objetivos e exigências orçamentárias do CICV. Traz um panorama do plano de ação da organização, cuidadosamente elaborado a fim de responder de maneira objetiva às necessidades das pessoas atingidas por conflitos armados e outras situações de violência, identificadas em outubro de 2007, quando este texto foi escrito.
O que se segue é um resumo da introdução feita por Pierre Krähenbühl, Diretor de Operações.
Progressos nas tendências e contextos dos conflitos
A análise da dinâmica dos conflitos armados em todo o mundo nunca foi um empreendimento tão delicado. A experiência mostra que as raízes da maioria dos conflitos atuais residem numa combinação de fatores no nível local ou nacional. No passado, o mais provável é que eles atingissem um ou mais governantes, sejam eles líderes de uma tribo ou de um país, colocando-os uns contra os outros com o objetivo de conseguir influência ou controle territorial. Esses conflitos envolviam as forças armadas convencionais, estabelecidas e estruturadas, que se confrontavam em campos de batalha determinados, com linhas de combate que poderiam ser demarcadas em mapas igualmente convencionais. Essas confrontações armadas procuravam obter pela força o que as forças beligerantes não podiam conseguir apenas por meio do diálogo, da negociação, adulação ou ameaça.
À medida que avançamos no século 21, os modelos de guerra estão evoluindo. Um número menor de guerras está sendo travado pelo controle direto do território, embora existam, certamente, algumas que têm uma forte dimensão territorial ou onde esta dimensão é subjacente como no conflito palestino-israelense. E menos guerras estão sendo travadas por motivos profundamente ideológicos, como era o caso durante a Guerra Fria.
Nos dias atuais, os conflitos parecem ser, com mais freqüência, alimentados pela pressão para conseguir o acesso imediato e de longo prazo ou o controle sobre recursos naturais essenciais. Os fatores econômicos desempenham, portanto, um papel significativo, nos quais os elementos armados se satisfazem destruindo a economia. Enquanto isso, muitos países continuam a sofrer de serviços públicos fracos ou em colapso, como saúde, água e assistência social.
Esses desdobramentos ficaram mais complicados em virtude de vários fatores: afirmação da identidade, proliferação das armas, degradação ambiental e escassez de terra e água, e a migração em massa, que, por sua vez, traz um aumento de novas formas de violência urbana. Em vários contextos, existe ainda uma névoa que confunde a linha divisória entre a violência política e a criminalidade.
Outra característica dos conflitos atuais é a variedade de formas de confrontação que envolve a influência recíproca entre a dinâmica local, regional e global. Em 2007, restavam poucas guerras entre os Estados, mas um número crescente de conflitos armados não internacionais extremamente complexos envolvendo vários atores com uma vasta gama de reivindicações e ressentimentos que adquirem, às vezes, uma dimensão internacional.
Tem havido um aumento significativo na influência dos atores não estatais, especificamente daqueles que se engajam em violência armada. Esses grupos são freqüentemente instáveis e têm a tendência de se fragmentar em diferentes facções, que se reagrupam sob novos comandos. Em 2007, assim como nos últimos anos, vários grupos armados se confrontaram em escala global com um grande número de Estados. Isto se manifestou em vários países principalmente em atos de “terrorismo”, por um lado, e operações de combate ao “terrorismo”, por outro.
As situações de conflito armado são freqüentemente caracterizadas por sua longa duração, natureza crônica, geralmente pela baixa intensidade e impacto difuso. Seja um conflito armado ou uma situação de violência, o resultado inevitavelmente se traduz em um grande número de mortos, feridos, detidos, pessoas separadas de suas famílias ou desaparecidos. Além disso, muitas pessoas também são indiretamente atingidas, tais como os enfermos que não têm a possibilidade de ter acesso aos cuidados médicos por causa dos combates ou da insegurança.
O CICV acredita que há os conflitos armados atuais e as outras situações de violência de hoje apresentam dois desafios principais: um deles é ter um entendimento claro da diversidade de conflitos armados e outras situações de violência e a especificidade de cada um deles; o outro é lidar de maneira significativa com a multiplicidade de necessidades das populações atingidas.
De acordo com a análise do CICV, a tendência aponta para que os civis sejam alvos e para o crescimento do número de vítimas indiretas. As ameaças à segurança dos civis freqüentemente surgem da falta de respeito por parte das partes beligerantes das normas e regras importantes do Direito internacional, notadamente do Direito Internacional Humanitário (DIH).
Os desdobramentos em 2007 confirmaram que a interação de muitos desses fatores torna a compreensão e a resposta a essas situações altamente complexa.
Aspectos importantes e prioridades operacionais em 2008
O principal foco do CICV será novamente atuar o mais próximo possível das pessoas atingidas por conflitos armados e outras situações de violência e, no melhor de suas possibilidades, oferecer uma significativa resposta humanitária às suas necessidades. O CICV vai se esforçar para agir rapidamente e de forma eficiente, levando em conta a natureza diferente das situações e necessidades com as quais se confronta.
O presente documento chama a sua atenção para um apelo inicial de 932,6 milhões de francos suíços, a fim de cobrir as atividades do CICV no terreno em 2008.
O orçamento do CICV para 2008 reflete o atual nível de engajamento operacional da organização em todo o mundo. Traz um acréscimo de 89 milhões de francos suíços em relação ao orçamento inicial de 2007 e como tal é o mais elevado orçamento inicial de terreno que o CICV já teve.
As implicações de nove ampliações de orçamento que foram feitas ao longo de 2007 devem ser levadas em conta. Quando há uma ampliação orçamentária para responder a uma tragédia natural ou a um contexto que passa por um aumento repentino seguido de uma redução também repentina na intensidade, como no Líbano entre 2006 e 2007, isto tem pouco efeito no orçamento do ano seguinte. Se, no entanto, os recursos adicionais mobilizados pelo CICV são alocados para conflitos armados já muito instáveis, como foi o caso de 2007, então freqüentemente existem implicações para o orçamento do ano seguinte. No Sudão, por exemplo, quando, no início de 2007, o CICV resolveu retomar a responsabilidade de conduzir todos os serviços no campo para deslocados internos de Gereida, em Darfur, a organização precisou obter mais 32 milhões de francos suíços, além do orçamento inicial para a operação, que era de 73 milhões de francos suíços. O CICV planeja continuar a administrar o campo pelos primeiros seis meses de 2008, antes que, assim se espera, passe a responsabilidade para outras agências. O orçamento inicial de 2008 para o Sudão é, portanto, mais elevado que o orçamento inicial de 2007.
Outro fator digno de nota é que a operação do CICV no Iraque tem o maior orçamento individual para 2008. É duas vezes o orçamento inicial de 2007, refletindo o compromisso renovado da organização de atender a algumas das necessidades agudas naquele contexto, em parceria com as instituições iraquianas. O aumento do orçamento reflete a intenção do CICV de responder a necessidades médicas agudas e às necessidades dos deslocados internos em geral.
O CICV vai manter ou reforçar suas operações em vários contextos complexos, incluindo o Afeganistão, a República Centro Africana, Colômbia, Chade, República Democrática do Congo, Filipinas, Sri Lanka e Somália.
Dois contextos apresentaram retrocesso para o CICV em 2007. Na Etiópia e em Mianmar, a capacidade operacional do CICV foi restringida seriamente em virtude das decisões dos respectivos governos. O CICV continuará presente em ambos os contextos e tentará reconstruir uma relação de confiança com as autoridades e superar os problemas de percepção da organização e as limitações operacionais que advém disso.
As dez maiores operações do CICV no mundo serão: Iraque (107,3 milhões de francos suíços), Sudão (106,4 milhões de francos suíços), Israel, Territórios Ocupados e Autônomos (68,2 milhões de francos suíços), Afeganistão (60,3 milhões de francos suíços), República Democrática do Congo (37,1 milhões de francos suíços), Colômbia (34,2 milhões de francos suíços), Somália (30,2 milhões de francos suíços), Chade (27,9 milhões de francos suíços), Sri Lanka (26,7 milhões de francos suíços) e Uganda (23, 2 milhões de francos suíços).
Conclusão
Operar em contextos de conflitos tão diversos e com tantas exigências traz vários desafios. Exige habilidade para analisar e antecipar tendências, e ao mesmo estar pronto para se adaptar às mudanças à medida que elas ocorrem ao longo do ano; estar pronto para correr riscos a fim de conseguir chegar até as populações atingidas, em termos de decisões individuais e coletivas que têm um significativo impacto humanitário; competência, criatividade e determinação por parte das equipes do CICV no terreno; aceitação e compreensão por parte de uma vasta gama de atores. Também requer o apoio essencial dos doadores, das Sociedades Nacionais, sociedade civil e empresas particulares.
O CICV está imensamente agradecido pelo apoio e confiança dos doadores em um ano que teve várias emergências novas, além dos conflitos em curso que demandaram atenção. A generosidade e a confiança deles foram muito importantes para permitir que o CICV pudesse conduzir sua missão. Em troca, o CICV fortaleceu ainda mais sua capacidade de informar e avaliar a fim de garantir transparência com relação à tomada de decisões e à utilização dos recursos dos doadores.
Apesar dos constrangimentos desanimadores que enfrenta, o CICV continua orientado pela determinação firme de fazer a diferença para as pessoas atingidas por conflitos armados e outras situações de violência. |
|