Situação desde uma perspectiva humanitária
À medida que o ano de 2007 se aproximava do fim, houve cada vez mais confrontos entre grupos armados oposicionistas e as forças armadas chadeanas. A tendência continuou quando no início de 2008 e atingiu o auge um mês depois, quando houve um ataque à capital, N'Djamena, e fortes combates aconteceram na cidade, em 2 e 3 de fevereiro.
Desde que os confrontos pararam, a situação foi gradualmente se acalmando, embora o futuro seja incerto.
A volta das organizações humanitárias para o leste do Chade deve ajudar a satisazer as necessidades das pessoas deslocadas na região. Esta área, em particular o território ao norte de Adé, é regularmente atingida por combates entre as comunidades, caracterizados por uma natureza bastante localizada. O sofrimento da população civil é mais grave pelo fato de que não há autoridades governamentais para evitar os combates e a pequena escala do esforço humanitário impossibilita que se enfrente as consequências de forma adequada.
Assim como no final de 2007, os crimes e o banditismo nas estradas representaram uma ameaça mais séria à segurança do pessoal humanitário que o comportamento das próprias partes beligerantes.
Apesar da situação volátil, alguns civis deixaram os campos destinados às pessoas deslocadas e começaram a voltar para seus vilarejos, seja para rápidas estadias ou na esperança de se estabelecer novamente em suas casas. Ao mesmo tempo, é provável que as precárias condições de segurança vão levar muito mais pessoas deslocadas a não querer voltar para casa ou vão impedi-las de fazê-lo. Consequentemente, elas vão procurar se estabelecer ou achar um meio de vida onde se encontram.
E, finalmente, os explosivos remanescentes da guerra continuam a ser um grande perigo para os civis, principalmente para as crianças. Os acidentes continuam a ser frequentes.
Distribuindo comida e produtos domésticos de primeira necessidade
Uma parte importante do trabalho do CICV na assistência de pessoas em zonas de conflito é o apoio a iniciativas conduzidas por elas para satisfazer às suas próprias necessidades. A organização estuda o modo de vida e as estratégias de sobrevivência da comunidade em questão a fim de encontrar uma abordagem adequada em parceria com a comunidade envolvida.
Em janeiro, 60 famílias do vilarejo de Abu Gulem receberam encerados, colchões, cobertores e utensílios de cozinha para capacitá-las a voltar para casa. Elas fugiram dos combates entre grupos de oposição armados e o exército chadeano em novembro de 2007 durante os quais suas casas foram destruídas.
Em fevereiro houve na fronteira um fluxo de refugiados dos vilarejos sudaneses de Seleia, Abu Suruj e Sirba. O CICV distribuiu produtos de primeira necessidade, como utensílios domésticos, para 5.120 pessoas que haviam encontrado refúgio em Birak, perto de Dar Tama. Isto possibilitou a sobrevivência dos beneficiários enquanto esperam para serem registrados e transferidos para outros lugares pelo Alto Comissariado de Refugiados das Nações Unidas.
A fim de promover a produção agrícola, em março o CICV forneceu equipamento de irrigação e implementos agrícolas para as quatro coletividades agrícolas em Dogdoré, onde moram quase 30 mil pessoas deslocadas.
Em fevereiro e março, 29 veterinários assistentes receberam treinamento em Goz Beida e Iriba. No final do curso, receberam remédios e outros produtos para o tratamento do gado. Sua missão é ajudar cerca de 1.450 famílias que dependem da criação de gado para a sobrevivência. O CICV também prestou apoio a um programa de vacinação de gado levado a cabo pelos serviços veterinários chadeanos e distribuiu materiais necessários para os cuidados de animais enfermos, como remédios.
Fornecendo água potável limpa
O CICV trabalhou em estreita cooperação com as autoridades chadeanas para fornecer um melhor acesso à água de boa qualidade e em quantidade suficiente às pessoas que vivem em áreas rurais atingidas pelo conflito.
O CICV terminou a reforma de 12 poços abertos na área de Assoungha (Arkoum, Goz Baggar, Todoma e Alacha), e em Adré. Cerca de 24 mil pessoas têm agora água suficiente para suas necessidades diárias.
O segundo gerador para o poço em Adé recebeu melhorias para aumentar a produção. O gerador é usado por quase 13 mil pessoas (deslocados internos e população local).
Melhorando o fornecimento de água nos centros médicos
Em Adré, onde uma pesquisa topográfica do sistema de fornecimento de água foi conduzida pela primeira vez, o CICV forneceu equipamento hidráulico para o encanamento ao comité gestor da rede hidráulica.
Os engenheiros do CICV também continuaram a avaliar o fornecimento de água e os sistemas sanitários nos centros médicos que recebem o apoio da organização, como o Hospital La Liberté em N'Djamena, e o Hospital Abéché, de forma que os feridos nos confrontos possam receber tratamento. A fim de garantir que os hospitais estejam capazes de enfrentar a achegada de grandes números de pacientes feridos, ou cortes de energia prolongados, o CICV está instalando um sistema alternativo de fornecimento de água, cuja bomba e gerador são subterrâneos.
A reforma das latrinas e chuveiros no centro de saúde em Borota (Assoungha) está concluída. Este centro presta assistência médica básica para cerca de 20 mil pessoas, entre famílias de deslocados, a população local e as pessoas que voltaram para o seu lugar de origem.
Ajudando os feridos de guerra
Como os serviços dos principais hospitais em N'Djamena foram suspensos durante os confrontos, o CICV enviou duas equipes cirúrgicas para garantir que os civis e combatentes feridos recebam tratamento adequado. Também forneceu equipamento cirúrgico e material para curativos para seis centros médicos que estavam tratando dos feridos na cidade. De acordo com as estimativas do CICV, cerca de mil pessoas ficaram feridas nos confrontos.
Melhorando a saúde das mães e crianças
A equipe médica do CICV apóia quatro centros médicos na região de Assoungha fazendo obras e fornecendo suprimentos médicos (remédios, curativos, etc). Uma vez que a saúde das mães e crianças é uma área em que há necessidades prementes e na qual o acesso limitado aos especialistas pode representar grandes riscos à saúde, o CICV oferece treinamento básico para as tradicionais parteiras. O objetivo é reduzir os riscos enfrentados pela mãe e a criança durante a infância e ajudar aqueles que trabalham com as mulheres e comunidades a reconhecer quando seus pacientes precisam ser enviados para um centro médico.
O CICV treinou 78 parteiras tradicionais, das quais 33 já estão prontas para começar a trabalhar. Essas mulheres receberam um kit de nascimento e serão beneficiadas por um programa de acompanhamento e mais treinamento.
Protegendo a dignidade e integridade física e mental da população civil
No espaço de três meses, o governo e os grupos armados oposicionistas entraram em confronto duas vezes, e um grande número de combatente foi detido e capturado.
Os delegados do CICV visitaram 71 locais de detenção no Chade. Quase 4 mil detidos foram visitados e entrevistados sem a presença de testemunhas, e 500 deles foram acompanhados individualmente. O objetivo dessas visitas é avaliar a situação e fazer recomendações às autoridades a fim de melhorar as condições de detenção e tratamento.
Apesar da intensidade, os confrontos em novembro de 2007 e fevereiro de 2008 resultaram em relativamente poucos feridos entre os civis. Mesmo assim, o CICV continua a promover o diálogo entre as partes no conflito, particularmente no que diz respeito aos civis. A organização também se esforça para que eles sejam protegidos. A segurança e as medidas para ajudar as pessoas que vivem no leste do Chade fazem parte da pauta dessas discussões bilaterais.
Restabelecendo os laços familiares
As atividades de busca e a distribuição de Mensagens Cruz Vermelha continuaram nos 12 campos de refugiados no leste do Chade. Esses serviços possibilitaram que parentes separados pudessem manter ou restabelecer o contato entre si e permitiram que as crianças desacompanhadas outras crianças separadas de seus parentes pudessem se juntar às suas famílias. O CICV também está monitorando 417 casos de crianças que foram separadas de suas famílias ou que estão desacompanhadas.
Como o serviço telefónico foi cortado durante os confrontos em fevereiro, o CICV e a Cruz Vermelha do Chade ofereceram aos moradores de N'Djamena a oportunidade de ligar para seus parentes que vivem no exterior e trocar notícias de natureza estritamente pessoal. Mais de 200 pessoas que não tiveram a possibilidade de falar com suas famílias por quase uma semana puderam assim se comunicar.
Evitando as violações do Direito Internacional Humanitário
A equipe do CICV continuou seus esforços para aumentar o conhecimento sobre a organização e as normas do Direito Internacional Humanitário, que protege os civis durante o conflito armado. Sessões de divulgação para soldados, oficiais da polícia, líderes comunitários, estudantes e autoridades políticas, entre outros, aconteceram regularmente em NDjamena, Koundoul e outras cidades no leste do Chade.
Além disso, o CICV continuou a apoiar as autoridades chadeanas em seus esforços para incorporar o Direito Internacional Humanitário na legislação nacional e nos procedimentos das forças armadas e de segurança.
Cooperação com a Cruz Vermelha do Chade
O CICV continuou a apoiar a Cruz Vermelha do Chade em seus preparativos para a gestão de tragédias, promovendo os princípios fundamentais do Direito Humanitário e restabelecendo os laços familiares.
A sociedade da Cruz Vermelha do país tem feito muito para manter a saúde pública desempenhando um papel importante recolhendo e enterrando os corpos das pessoas mortas nos combates de fevereiro. Assim como nos combates de novembro e dezembro de 2007, voluntários da Cruz Vermelha salvaram vidas trabalhando com imparcialidade a fim de levar os feridos para os centros médicos que ainda funcionam em N'Djamena.