Gawza nos recebe na sala de sua casa no vilarejo de Solkushina, no norte da Chechênia. A mobília é precária: dois sofás, um pouco de utensílios de cozinha num canto e uma foto de Meca com alguns suras do Alcorão. Ela nos dá as boas vindas mesmo antes de saber porque estamos aqui. O fogão à gás deixa o ambiente bastante quente.
Virginie explica para Gawza que o CICV visita regularmente as pessoas que têm um ou mais parentes desaparecidos, a fim de avaliar suas necessidades e oferecer-lhes o máximo de conforto que pode. Logo elas começam a conversar. Aína traduz para Gawza, a qual, uma vez que começa a falar, não pode parar. Ela tem muito a dizer. Limpa seus olhos cansados, mas nenhuma lágrima cai.
Seu filho Khassan, de 37 anos, está desaparecido desde 2005. Esta mãe desesperada já perdeu outro filho, encontrado morto e decapitado poucas semanas depois de desaparecer. Gawza afirma estar exausta.
Desde o desaparecimento de Khassan, ela tem sido perseguida por certos pensamentos: quando come, imagina que seu filho está comendo; quando vai para a cama, fica pensando onde fica a cama dele. Ela dorme mal, vive sozinha, e está muito cansada. Mas reza muito, afirma, e isto ajuda.
Continuando a viver
Gawza acredita que seu filho ainda esteja vivo. Ela está certa disso, pode senti-lo. E além disso, uma cartomante lhe disse que seu filho se encontra em um lugar longínquo. E depois ela ouviu a história de um homem que voltou – vários anos após ter desaparecido – de um centro de detenção secreto, muito longe. Ela espera que seu filho também esteja lá, ou em algum outro lugar.
Para não pensar demais, caminha pelo vilarejo quando o tempo permite. Conversa com as pessoas. Ela não quer saber sobre os esforços do CICV para localizar seu filho, ou procurar as associações de familiares de desaparecidos. Isto não ajudaria. Quer continuar a se apoiar nas histórias e notícias que lhe trazem conforto.
Seu rosto se ilumina um pouco quando Virginie lhe pergunta se ela vê os netos. São sete, e ela gosta de brincar com o que mais se parece com Khassan. Isto faz com que sinta melhor, permitindo-lhe fugir do presente e se refugiar nas suas memórias.
Ela também diz que às vezes quer parar de viver. Quando Virginie lhe repete isso, responde com um sorriso: "Não, na verdade, não penso nisso com tanta frequência."
Gawza sonha com seu filho. Ele conversa com ela de onde se encontra, dizendo-lhe que está vivo. Virgine e Aína falam suavemente: "Tente imaginar o que seu filho desejaria se ele soubesse que você está pensando nele o tempo todo, chegando ao ponto de impedir a senhora de viver. O que ele lhe diria?"
"Sim, vou tentar", ela afirma, "talvez".
Ela fala sobre seu outro filho que está morto. "Pelo menos sei onde ele está, e pude fazer o luto por ele". Ajusta seu véu e olha para Aína e Virginie. "Obrigada. Realmente preciso conversar."