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12-06-2007  Conferência de imprensa  
Afeganistão: Três décadas de guerra sem um fim à vista
Para o CICV, o ano de 2007 marca 20 anos de presença ininterrupta no Afeganistão. O diretor de operações da organização, Pierre Krähenbühl, lembrou o sofrimento duradouro do povo afegão ao longo de sucessivos conflitos armados e prestou homenagem à sua infinita coragem e capacidade de reação.

O conflito entre, por um lado, as forças internacionais e as afegãs, e por outro, os grupos oposicionistas armados no Afeganistão cresceu significativamente e se espalhou nos últimos 12 meses, não mais restrito ao sul, mas se estendendo para outras regiões no leste, oeste e norte. Fontes oficiais informam que o número de baixas em 2006 foi de 4 mil, das quais 670 eram civis.
O CICV aumentou seu apoio para os hospitais a fim de lidar com o grande fluxo de feridos de guerra, como também para prover assistência emergencial para as pessoas que tiveram de abandonar suas casas por causa da escalada do conflito. A operação humanitária tornou-se novamente emergencial no ano passado e esta fase está longe de terminar em termos da assistência médica e de socorro requeridos pela população afegã.

Pierre Krähenbühl, que trabalhou para a delegação do CICV em Cabul de 1993 a 1995, descreveu o povo afegão como orgulhoso, obstinado, às vezes hostil, mas profundamente humilde e ao mesmo tempo moderado.

“O Afeganistão serve como um exemplo que nos diz tanto sobre porque o gesto humanitário é algo realmente universal”, refletiu. “As primeiras pessoas a responder a uma necessidade imediata são certamente os vizinhos, os próprios afegãos, que recebem em seus lares uma família que precisou abandonar sua própria casa.”

Krähenbühl homenageou todos os afegãos envolvidos na ação humanitária, particularmente os cirurgiões e enfermeiras que, durante anos, têm operado os hospitais por conta própria, mas também a equipe de 11 mil voluntários da Sociedade Afegã do Crescente Vermelho (SACV) e os funcionários internacionais do CICV (62) e os locais (mais de 1,1 mil).

A deterioração da situação humanitária se deve à proliferação de bombas colocadas ao longo das rodovias, ataques suicidas, assassinatos com alvos planejados, bombardeamentos aéreos significativos e longos, e operações militares que aumentaram em freqüência e se espalharam para várias partes do país.

O Afeganistão hoje está longe da estabilidade. Os combates intensos levaram a um aumento significativo do número de feridos de guerra e há um sentimento de insegurança geral e difuso entre a população local.

“Hoje a preocupação básica dos afegãos na maior parte do país é como ficar longe das zonas de conflito e evitar ser surpreendido pela violência”, afirmou Krähenbühl.

As hostilidades provocaram o aumento dos deslocamentos das pessoas, principalmente no sul, em torno de Kandahar, onde os combates têm sido particularmente intensos e acontecem regularmente.

Muitas das situações de emergência no ano passado tiveram o acréscimo de tragédias naturais, como um ciclo contínuo de enchentes e seca.

Por muitas pessoas atingidas pelo conflito, a distância dos locais onde elas moram ou de onde tiveram de se refugiar depois de abandonar suas casas significa que às vezes muitas delas não conseguem ter acesso a cuidados médicos de qualidade.

Por essa razão, o CICV aumentou seu apoio a hospitais a fim de fomentar a sua capacidade de lidar com os grandes fluxos de chegadas de feridos. A organização também incrementou seu apoio para as clínicas e os voluntários do Crescente Vermelho Afegão que saem para regiões delicadas do país para formar equipes de primeiros socorros junto às comunidades. Mais de 1.700 feridos de guerra foram tratados em 14 centros de saúde apoiados pelo CICV nos últimos 12 meses.

O desafio constante da organização continua a ser trabalhar com todas as partes a fim de ajudá-las a entender sua responsabilidade de respeitar e aplicar o Direito Internacional Humanitário (DIH).

“Isto significa especificamente monitorar a conduta das hostilidades no terreno pelas forças internacionais, o Exército nacional afegão, a polícia nacional afegã e os grupos que pertencem à oposição armada no Afeganistão”, afirmou Krähenbühl.

Krähenbühl ilustrou isto com o exemplo de um ataque que aconteceu na província de Herat um mês atrás, quando uma série de bombardeios e combates terrestres resultou em várias dezenas de mortes, incluindo de civis, mais de 2 mil pessoas deslocadas e 170 casas parcialmente ou totalmente destruídas.

Krähenbühl prosseguiu relatando a expansão da ação do CICV graças a uma parceria muito eficaz com a SACV.

“O que nos permite hoje ser mais eficazes que há quatro ou mesmo dois anos atrás é o fortalecimento da nossa parceria com a Sociedade Afegã do Crescente Vermelho”, afirmou. “Graças a ela e à sua liderança, foram feitos grandes esforços para colocar a organização no mesmo patamar que o CICV como um ator humanitário independente e neutro, com acesso em todo o país por meio de seus 11 mil voluntários de primeiros socorros que atuam junto às comunidades.”

O CICV continua a fazer suas visitas a quase 7 mil detidos em 34 prisões. Somente no começo de 2007 prestou assistência para mais de 15 mil deslocados na região de Kandahar. O trabalho ortopédico continua, com mais de 76 mil pessoas sendo tratadas desde 1988, das quais mais de 32 mil são pessoas que sofreram amputação. O CICV também conduz atividades para melhorar os suprimentos de água em alguns dos bairros urbanos mais pobres do Afeganistão.

Pierre Krähenbühl confirmou que o CICV permanece há 20 anos no Afeganistão com o mesmo comprometimento de assistir e proteger as pessoas mais necessitadas.

“O fato de que tivemos 20 anos de trabalho no Afeganistão salienta uma tendência que observamos em muitos lugares em que trabalhamos no mundo, uma tendência de muitos conflitos se prolongarem por muito tempo”, afirmou. “Precisamos encontrar um modo equilibrado de lidar tanto com as situações de emergência como com a natureza crônica e os impactos do conflito.”

Krähenbühl disse que a capacidade de recuperação e a confiança foram essenciais para a eficácia das atividades do CICV nas últimas duas décadas.

“A prontidão para permanecer ao longo do tempo, mesmo durante as fases em que ninguém estava particularmente interessado ou compromissado com o Afeganistão, e confiando na iniciativa e aptidões locais são dois aspectos que foram fundamentais para o nosso trabalho em todos esses anos”, concluiu.

O Afeganistão continua a ser a quarta maior operação do CICV após o Sudão, o Iraque e Israel e Territórios Autônomos.


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12-06-2007