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15-07-2008  Entrevista  
Israel-Líbano: operação de traslado
Antes da repatriação dos detidos e dos restos mortais entre Israel e Líbano prevista para 16 de julho, Eric Marclay, vice-chefe de operações do CICV para o Oriente Médio e o Norte da África, explica porque a organização está envolvida e o papel que deve desempenhar.

©ICRC
Eric Marclay


O senhor pode nos dar alguns detalhes da entrega?

Hoje cedo, em uma base militar no norte de Israel, 11 caminhões e caminhonetas foram carregados com os restos mortais de 197 pessoas mortas durante conflitos passados. No momento em que estou falando (18h no horário de Genebra, 16 de julho), os restos mortais estão em processo de serem entregues ao Hezbollah.

Por volta das 10h desta manhã, no horário local, o Hezbollah entregou ao CICV dois caixões com os restos mortais. O CICV, por sua vez, entregou-os às autoridades israelenses. Por volta das 3h, no horário local, as autoridades israelenses confirmaram que as identidades dos restos mortais contidos nos dois caixões são dos dois soldados israelenses capturados Ehud Goldwasser e Eldad Regev.

Aproximadamente às 11h30, no horário local, um primeiro caminhão (de um total de 11) com o emblema do CICV, chegou a Rosh Hanikra, no lado israelense, trazendo os restos mortais de 12 pessoas. O CICV entregou-os ao Hezbollah, do outro lado.

Os cinco detidos libaneses soltos por Israel foram entrevistados pelo CICV em caráter privado, a fim de garantir que eles estão sendo repatriados por sua própria vontade. Eles foram entregues pelas autoridades israelenses ao CICV. Por sua vez, o CICV transferiu-os ao Hezbollah por volta das 17:30, no horário local. Ao mesmo tempo, o Hezbollah entregou ao CICV um caixão com restos mortais não identificados, que por sua vez, foram entregues pelo CICV às autoridades israelenses.

As autoridades israelenses e o Hezbollah estão fazendo testes de DNA nos restos mortais. O CICV não faz identificação de DNA.

Qual o papel do CICV na entrega dos detidos soltos e dos restos mortais?

O CICV sempre mantém um diálogo aberto com todas as Partes em conflito com vistas a aliviar o sofrimento das pessoas cujas vidas foram arruinadas por conflitos armados. Neste caso, nossa preocupação básica é ajudar a reunir as famílias e seus entes queridos e acabar com anos de angústia para aqueles cujos parentes desapareceram.

Como não existe contato direto entre Israel e o Hezbollah, o CICV ofereceu seus 'bons ofícios' tão logo tomou conhecimento de que estava sendo negociado um acordo entre as Partes. Informamos a ambas as Partes de que estávamos prontos para entrar em ação como intermediários neutros, caso fossemos solicitados. Alguns dias atrás, as autoridades israelenses e o Hezbollah nos pediram para ajudar na entrega de vários detidos e dos restos mortais de cerca de 200 pessoas mortas durante os conflitos nas últimas décadas.

O CICV participou das negociações nesta operação?

Não participou das negociações em si. O papel do CICV como intermediário neutro também pode envolver a intermediação entre as Partes se isto for o que elas quiserem, mas isto acontece raramente. Normalmente, são as próprias Partes que chegam a este tipo de acordo, freqüentemente com o apoio dos Estados que atuam como mediadores de maneira correta e honesta.

Qual é o valor do CICV nesta situação?

Tendo em vista as atuais circunstâncias, esta operação certamente não seria possível sem a participação de uma terceira parte. À parte o fato de que temos um mandato para atuar como intermediário neutro, o CICV também é considerado como um ator sério e confiável neste tipo de situação. Mais importante ainda, goza da confiança das Partes, o que o deixa na posição de ajudar a garantir o sucesso dessas delicadas operações, que são freqüentemente complexas.

Presente na região desde 1948, várias vezes o CICV trabalhou na repatriação de detidos e dos restos mortais entre Israel, Líbano, Jordânia, Egito, Síria. Nos últimos anos, esteve particularmente envolvido em operações semelhantes entre Israel e o Hezbollah, em janeiro de 2004, outubro de 2007 e junho de 2008.

Há limites ao que o CICV pode fazer?

O CICV não pode se impor se o seu papel não for aceito pelas Partes interessadas. Tudo o que podemos fazer é persuadir aqueles que controlam a situação a agir de acordo com o espírito e as normas do Direito Internacional Humanitário. Infelizmente, em alguns exemplos as considerações políticas tendem a se sobrepor às preocupações humanitárias, impedindo ajudar os desaparecidos e suas famílias. No entanto, acreditamos firmemente que desenvolver e manter contatos com todas as Partes em um conflito ou em uma situação de violência interna, sejam elas Estados ou grupos armados não estatais, é de extrema importância a fim de avançar no que diz respeito aos detidos e aos desaparecidos, como também para permitir a realização de operações humanitárias em prol das vítimas.

Portanto, vamos continuar a trabalhar em benefício dos desaparecidos e detidos e suas famílias, espalhados por toda a região. Isso inclui, por exemplo, aqueles que desapareceram durante as duas guerras do Golfo, e os que desapareceram em ação ao longo das várias etapas do conflito entre Israel e Líbano, ou entre Israel e os palestinos. Além disso, os delegados do CICV estão visitando os detidos ou buscando ter acesso aos detidos em vários países da região.

Em que outras regiões do Oriente Médio o CICV está atuando na qualidade de intermediário neutro?

O CICV está, por exemplo, ajudando as pessoas que vivem nas colinas do Golã, ocupadas por Israel, a ingressar na Síria. Neste grupo há estudantes, peregrinos e noivos que vão se casar do outro lado. Este trabalho já permitiu inclusive que as maçãs cultivadas por agricultores drusos no Golã ocupado pudessem ser transportadas para a Síria.

©ICRC/A. Amro
Fronteira entre Israel e Líbano, 16 de julho de 2008. Oficiais da Unidade do Rabinato Chefe do Exército Israelense retiram de um veículo do CICV um caixão preto com os restos mortais de um soldado israelense morto em 2006.

©ICRC/A. Amro/lb-e-001088
Posto fronteiriço de Naqura, sul do Líbano, 16 de julho de 2008. Equipe do Comitê Islâmico de Saúde, ligado ao Hezbollah, descarrega de um caminhão do CICV os caixões com os restos mortais de combatentes do Hezbollah e palestinos.

©ICRC/A. Amro/lb-e-001082
Posto fronteiriço de Naqura, sul do Líbano, 16 de julho de 2008. Soldados franceses das forças de paz da ONU caminham atrás de caminhões do CICV com os restos mortais de combatentes palestinos e do Hezbollah.


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15-07-2008