Béatrice Mégevand-Roggo
Como você descreveria a atual situação humanitária em Gaza?
A situação continua crítica. Nossos representantes em Gaza dizem que o apuro da população em estocar comida, combustível e remédios no Egito é um exemplo dramático da escassez que eles têm sofrido nos últimos sete meses.
Gaza tem sofrido um crescente distanciamento do mundo exterior desde junho de 2007, resultando em uma severa carência de suprimentos básicos. Meses de restrições comerciais sobre produtos importados deixaram a população altamente vulnerável e os eventos recentes ameaçaram ainda mais a situação humanitária deles.
A infra-estrutura está perto de um colapso e os esforços humanitários estão sendo atrasados. Em alguns casos já parou completamente devido às severas regras e procedimentos de entrada impostos pelas autoridades israelenses nos poucos pontos de entrada ao território.
Que impacto a abertura da fronteira de Rafah teve sobre as condições do território?
De acordo com as Nações Unidas, quase metade da população de Gaza já cruzou para o Egito, via Rafah, desde o dia 23 de janeiro. A abertura da fronteira deu mais fôlego para os cidadãos de Gaza, que também estão usando esta oportunidade para procurar por assistência médica nos hospitais do Cairo e organizar encontros com familiares na região.
Nossa equipe em terreno diz que houve alguma melhora no acesso à eletricidade para casas, lojas, estações de bombeamento de água e para os hospitais na cidade de Gaza, mas os veículos privados são raros nas ruas da cidade devido à escassez de combustível, assim como um forte fluxo de tráfego entre Gaza e Egito, que também é incomum. As crianças que necessitam de transporte para chegar à escola não podem comparecer às aulas e uma taxa de 45% de ausência foi registrada no dia 24 de janeiro.
No dia 22 de janeiro, carregamentos de combustível foram permitidos na fronteira de Nahel Oz, mas somente 13 caminhões levando produtos alimentícios humanitários puderam cruzar para Gaza desde Kerem Shalom, um número muito menor à quota autorizada de 50 caminhões por dia. Nesta travessia, estava incluído um caminhão do CICV contendo 40m3 de remédios urgentemente necessários e itens descartáveis.
Apesar de ser encorajador ver uma abertura parcial de duas fronteiras controladas pelas Forças de Defesa Israelenses, nós estamos preocupados que isto não será o suficiente para assegurar um contínuo abastecimento de remédios e materiais médicos básicos aos centros de assistência médica. A escassez de combustível também é uma preocupação constante nos hospitais.
©Reuters /M. Salem
Palestinos fazem seu caminho até o Egito após cruzarem a parte destruída do muro da fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito.
O que precisa ser mudado, de acordo com o CICV?
Nós insistimos que a entrega de produtos humanitários básicos deve ser assegurada por longo prazo para prevenir mais sofrimento para a população. Convocamos todas as autoridades responsáveis para abrir as fronteiras de modo consistente a fim de assegurar que as necessidades básicas da população sejam supridas.
O fechamento total da Faixa do dia 17 ao dia 22 de janeiro intensificou uma situação que já era horrível. É por isso que o CICV reitera a necessidade de voltar aos mesmos níveis de acesso de produtos humanitários e profissionais que havia antes de junho de 2007.
O CICV também reitera seu requerimento de que Israel respeite suas obrigações determinadas pelo Direito Internacional Humanitário e de que as facções palestinas parem de atacar as áreas civis e de colocar em risco as vidas dos mesmos.