Felipe Donoso, chefe da delegação do CICV nas Filipinas
Quantas pessoas foram deslocadas desde a última onda de combates em Mindanao?
De acordo com fontes do governo, o maior deslocamento ocorreu na província de Cotabato do Norte, onde mais de 130 mil pessoas fugiram de suas casas apenas alguns dias após o reinício do conflito, em 10 de agosto. Muitas retornaram a seus povoados desde então, mas cerca de 50 mil continuam em centros de deslocados por medo de novos combates. Também começaram confrontos em outras províncias do sul, provocando o deslocamento de mais de 80 mil pessoas.
Ao longo dos últimos anos, o CICV prestou assistência permanente a mais de 100 mil pessoas por ano, que foram deslocadas em virtude do conflito armado em Mindanao. Quando você compara esse número com o de pessoas deslocadas em apenas duas semanas, percebe o tamanho do problema. Além disso, antes os deslocamentos duravam pouco, geralmente apenas alguns dias. Agora, alguns civis já estão em sua terceira semana longe de casa, sem cuidar de seus campos de cultivo.
O CICV tem acesso a todas as áreas atingidas pelos atuais combates?
Equipes do CICV, coordenadas por nossa subdelegação em Davao, operam no momento em três cidades: Iligan, General Santos e Cotabato. Portanto, podemos trabalhar na maioria dos municípios atingidos.
Estamos nos esforçando para obter acesso às áreas distantes, onde a situação humanitária pode ser preocupante, mas antes é necessário dispor de garantias de segurança. Este ainda é o caso de várias áreas rurais. Não se trata de uma tarefa fácil porque precisamos de garantias de segurança de todas as partes envolvidas nos confrontos armados. O CICV lembra as partes envolvidas nos combates quanto à sua obrigação de respeitar o Direito Internacional Humanitário. Elas devem permitir que a assistência emergencial e os suprimentos médicos cheguem a todas as pessoas com necessidade.
Qual foi o papel do CICV na recente evacuação de civis?
Em 22 de agosto, enquanto ocorriam confrontos em povoados próximos de Datu Piang, na província de Maguidanao, tivemos conhecimento de que centenas de moradores se viram em meio à zona de combate. Graças à nossa longa presença em Mindanao e à confiança que ganhamos por parte de todos os envolvidos no conflito, rapidamente conseguimos o sinal verde das forças armadas e do grupo armado, a Frente Islâmica de Libertação Moro, para evacuar mais de 900 civis em direção a um centro nos arredores. Sabemos que outros civis estão no meio do fogo cruzado em outros municípios. Estamos prontos para protegê-los da violência, ajudando-os a chegar a áreas mais seguras.
O senhor pode descrever a situação humanitária que os deslocados enfrentam?
Os acontecimentos recentes em Mindanao apenas pioram a já difícil situação vivida por dezenas de milhares de filipinos. Alguns tiveram suas casas destruídas por furações. A maioria das províncias de Mindanao empobreceu devido ao conflito. Os serviços de saúde agora precisam atender não apenas à população residente, mas também aos feridos e deslocados. Algumas famílias puderam reunir seus pertences antes de fugir de casa; outras não. Algumas famílias encontraram abrigo nas casas de parentes, mas a maioria permanece em centros para abrigar deslocados ou em casas improvisadas ao longo das estradas. Elas precisam de cuidados médicos básicos, água potável, comida e abrigo.
Que tipo de ajuda o CICV pode prestar à população atingida?
Nas primeiras duas semanas de combate, o CICV entregou porções de comida suficientes para uma semana, para aproximadamente 50 mil deslocados nas províncias de Cotabato e Sarangani, com o apoio da Cruz Vermelha Nacional das Filipinas. Cerca de 11 mil pessoas receberam gêneros domésticos essenciais, como lonas, galões de água e mosquiteiros. As equipes do CICV também distribuíram tanques de água, bombas e canos com capacidade para abastecer água potável a mais de 15 mil pessoas. Além disso, as equipes do CICV e da Cruz Vermelha Nacional das Filipinas prestaram assistência a 23 feridos de guerra. Também entregaram medicamentos essenciais e suprimentos médicos a três centros de saúde que tratam de deslocados na área de Iligan.
O que o CICV pretende fazer no caso de uma crise prolongada?
Parece que os confrontos vão continuar e a situação de segurança se manterá volátil. Por isso, é provável que dezenas de milhares de famílias sejam deslocadas nas próximas semanas. Moradores de áreas marcadas por conflitos sabem como lidar com os freqüentes deslocamentos de pequena duração. No entanto, os mecanismos que desenvolveram para enfrentar essas situações podem entrar em colapso se os deslocamentos durarem várias semanas ou meses. As comunidades que recebem os deslocados e as autoridades talvez não possam responder a todas as necessidades. A fim de evitar crises humanitárias, o CICV planeja distribuir porções de comida a 325 mil pessoas nos próximos quatro meses.